Segundo o autor, "os gêneros textuais são nossa forma de inserção, ação e controle social no dia-a-dia" (p. 161) e baseada nessa afirmação, me arrisco a dizer que eles são os mediadores da vida social. Nessa perspectiva, a língua é um sistema que permite a ação comunicativa, mas não é somente isso, pois já vimos aqui que os discursos não são neutros, eles atuam no controle da sociedade de maneira implícita. Justamente por isso devemos nos preocupar com o ensino de língua portuguesa: para desenvolver nos indivíduos as habilidades necessárias ao exercício da cidadania.
Sem dúvidas, não conseguiremos isso se basearmos nossa prática nos modelos tradicionais de ensino que preocupam-se apenas em ensinar os conteúdos fragmentados e técnicos, sem nenhuma relação com as necessidades concretas da vida em sociedade.
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| "A língua da escola: fragmentada" |
Como já vimos acima, devemos trabalhar a língua em sala de aula a partir dos gêneros textuais e para que isso ocorra de forma eficaz, precisamos compreender alguns conceitos como a noção de suporte.
Suporte é o veículo físico ou virtual com formato específico que materializa o texto.
E por que precisamos saber disso? Para sabermos diferenciar um do outro, por exemplo, o jornal não é um gênero, é um suporte. Além disso, podemos identificar o gênero a partir do suporte. Este podendo ser convencional (como livros e revistas) ou incidental (como embalagem, pára-choque de caminhão e roupas).
Marcuschi levanta a questão dos gêneros mais adequados para o trabalho em sala de aula e, ao analisar o PCN, critica a ideia de que há gêneros adequados para leitura e outros para a escrita. Por outro lado, ele concorda com o PCN ao afirmar que a escrita e a fala são complementares, sendo contrário às ideias de que a escrita representa graficamente a fala ou que estas se opõe. Na verdade, a oralidade e a escrita fazem parte do mesmo sistema da língua, apresentando algumas peculiaridades.
Estas não são as únicas relações que Marcuschi faz com o PCN. Ao longo de sua produção, ele realiza algumas críticas ao documento, uma delas em relação a indicação dos gêneros a serem trabalhados, como podemos ver no seguinte trecho: “Consideram-se apenas os gêneros com realização linguística mais formal e não os praticados nas atividades linguísticas cotidianas.” (p. 209) Além disso, estas sugestões trabalham mais com a leitura do que com a escrita.
E, afinal, o que o autor nos sugere para o processo de ensino-aprendizagem da língua? Ressaltando que a leitura do texto é indispensável, busco aqui apenas resumir algumas questões pertinentes.
Em primeiro lugar, devemos nos preocupar em trabalhar na sala de aula a linguagem adequada aos diversos contextos sociais, lembrando que os domínios discursivos influenciam nesta escolha. Dessa maneira, não devemos utilizar apenas os gêneros mais formais, mas também gêneros do cotidiano como telefonemas, conversações, cartas, bilhetes, receitas e etc. Convém destacar que esta visão de ensino tem sido trabalhada conosco desde o 1º semestre de 2011 na disciplina TAE LP.
Também devemos nos preocupar em trabalhar a oralidade, algo fundamental para a vida em sociedade, e valorizar a heterogeneidade cultural do país. Sobre este último, acrescento que uma prática docente culturalmente sensível é indispensável no ensino do respeito às diferenças.
Em sua produção, o autor também discute a relação dos gêneros com as novas tecnologias, aborda questões como a intergenericidade e a heterogeneidade tipológica, a relação da cultura com a utilização dos gêneros, dentre outras. Mas correndo o risco de transformar esta postagem num testamento, optei por não me aprofundar nestas questões.

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