21 de set. de 2011

O direito de ficar calado

O discurso humano não pode ser considerado algo neutro, sempre há uma ideologia presente neste. E este é justamente o tema abordado por Michel Foucault em "A Ordem do Discurso":

"Eis a hipótese que gostaria de apresentar esta noite, para fixar o lugar - ou talvez o teatro muito provisório - do trabalho que faço: suponho que em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade." (FOUCAULT, 1970, p. 4)
O que percebemos é que existe algo implícito no discurso - a sua ideologia - e que este é regulado por uma série de ferramentas, incluindo as instituições. Nesta perspectiva, o discurso passa a ser não apenas um "conjunto de palavras", mas também pode ser considerado um mecanismo de controle.

Apesar de nunca ter trabalhado em sala de aula, procuro analisá-la das lembranças que tenho do meu período de estudante articulando com as teorias estudadas na minha graduação. O que percebo é que o discurso presente nas escolas é o da ideologia capitalista: o aprender a aprender, a meritocracia, as avaliações (controle de qualidade), as competências e etc. É claro que as escolas - mesmo com seus muros altos e "impenetráveis" - sempre serão influenciadas pela sociedade em que estão inseridas, mas esta influência não pode ser absoluta visto que a sociedade capitalista produz desigualdades e a desumanização dos excluídos.  

O meu discurso também não é algo neutro, é fruto dos meus recentes estudos na universidade... Mas cabe a cada um analisar os argumentos e buscar o reconhecimento do "oculto". 

Diante deste tema também podemos questionar quem tem a oportunidade de discursar? 



Mais uma vez busco em minha mente as lembranças do período escolar... Os alunos não tinham a oportunidade de serem ouvidos: as dúvidas eram encaradas com impaciência e todos tinham o direito de ficarem calados. Embora tenha estudado em escola particular, sei - através de relatos de outros estudantes da graduação - que o mesmo acontecia na escola pública. 



Já na faculdade deparei-me com uma rotina em sala de aula bem diferente da que conhecia anteriormente: exigia de mim a participação, estimulava o debate e o pensar sistematizado, depois de tantos anos em silêncio... Convém ressaltar que também existem momentos em que precisamos ouvir.

Neste contexto, penso que a sala de aula deve ser um espaço onde os alunos possam se expressar e receber estímulos para desenvolver seu pensamento criativo. E concluo minha postagem com uma reflexão:

"Escreve realmente mal o estudante que não tem o que dizer porque não aprendeu a pôr em ordem seu pensamento, e porque não tem o que dizer, não lhe bastam as regrinhas gramaticais, nem mesmo o melhor vocabulário de que possa dispor. Portanto, é preciso fornecer-lhes os meios de disciplinar o raciocínio, de estimular-lhe o espírito de observação dos fatos e ensiná-lo a criar ou aprovisionar ideias: ensinar, enfim, a pensar." (GARCIA, 2002, p. 301)  

Não é com a "lei do silêncio" que conseguiremos isso...

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